Crônica da cidade – Belém de lendas e mistérios

Crônica da cidade – Belém de lendas e mistérios
  17 de abril de 2019
Coordenação de textos: Antonio Carlos Pimentel / Redação: Sue Anne Calixto / Fotos: Fernando Sette Câmara – Todos os direitos reservados / All rights reserved

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Belém tem várias histórias de arrepiar. As famosas lendas amazônicas que, sendo reais ou não, promovem um certo misticismo na nossa cultura, e fazem parte de nossa história.

Isso me lembra uma infância repleta de casos, repassados de geração em geração, em que nos reuníamos eu, meus irmãos e primos para escutar os contos de visagens, ora contados pelo meu avô, ora contados pela minha avó. Lembro do medo que isso causava na gente, e de como a imaginação fazia a gente enxergar milhões de coisas sobrenaturais.

O meu avô mora em um interior chamado Bujaru, onde para chegar temos que atravessar em uma bolsa. Isso era um palco para a lenda da Cobra Grande. De modo adaptado, ele contava que tinha uma cobra gigante que vivia naquele rio. E que talvez ela ainda estivesse por lá.

Para a imaginação fértil de uma criança, era bem assustador atravessar aquele rio e imaginar que a qualquer momento poderíamos ver ao lado a cabeça de uma cobra gigante.

Além disso, o meu avô tem uma casa com um quintal enorme e repleto de mato. Esse era o cenário para outra lenda, a da Matinta Pereira. Sim, ele contava que já havia escutado os assobios da criatura, vindos daquele quintal. E também contava as histórias de pessoas que já haviam sido visitadas pela Matinta.

A minha avó conta que lá nesse interior também existia o lobisomem, e que inclusive isso estava comprovado, e que chegaram a descobrir quem era a criatura. Isso porque, em uma noite, uma jovem de saia vermelha estava andando pelas ruas, voltando de uma festa, e de repente um lobo enorme começou a correr atrás dela. A moça então subiu em uma árvore e chutou a cara do animal, mas não antes que ele arrancasse um pedaço de sua saia. No dia seguinte, todos já estavam sabendo da história. E por acaso, havia um jovem que do nada apareceu com a cara machucada, e preso em seus dentes havia um pedaço do tecido vermelho.

Havia também a crença de que não poderíamos tomar banho de Igarapé depois de determinado horário porque era bem capaz da Iara, mãe d’água, aparecer. E sabe se lá o que poderia acontecer. Bom, eu que não tinha coragem de arriscar. Tenho uma outra avó que jura de pé junto que teve um boto que engravidou uma moça no interior em que ela vivia. Aquela velha história de que o boto se transformava em homem durante a noite para sair para dançar. E em uma dessas madrugadas ele conheceu essa moça e pronto, ela acabou engravidando. Ou a moça sem rosto, que aparecia para homens durante as madrugadas em que eles estavam voltando de festas e viam uma moça sozinha, de longos cabelos pretos que escondia o rosto (ou a falta dele). Quando eles se aproximavam para tentar contato, ela se transformava em um monstro e revelava a falta do seu rosto.

E quantas infinitas vezes não escutei a lenda da mulher do táxi. Aquela que chamava um táxi, e pedia para que o motorista a levasse até a sua casa, lá ela informava que ia lá dentro buscar o dinheiro. Após uma grande demora, o taxista batia na porta da casa para realizar a cobrança. A foto estava na parede da casa e ele apontava avisando que tinha feito a corrida aquela jovem. E então ele descobria que a moça já estava falecida há algum tempo. É, todas essas histórias fazem parte do cotidiano da cidade, e vão passando de geração para geração. Sendo verdade ou não, todos esses casos ajudam a moldar e construir a história da cidade.